sábado, 22 de dezembro de 2007

polaroids

Ele me observa com aqueles olhos de mudar o mundo, veste o seu sorriso mais desconcertante e declara saudades. Faz meu peito acelerar e se enche de um orgulho incontido. Ele sabe que me faz feliz, que esse afeto grande, puro e honesto faz mais por mim que qualquer tentativa de falar de um amor de fantasia. Sabe que pensamos que a cumplicidade desbotaria com o tempo e tem o mesmo prazer que eu por descobrir que somos mais amigos que antes, que nunca vamos desbotar. Ele me observa confiante, cônscio de que vamos seguir, enquanto durar tanto amor. Ele parece feliz e é justamente esse instantâneo que vou levar da vida, quando me for. Essa certeza plena de felicidade, embrulhada em fita de presente, o rosto dele contente, seu porte altivo e o recado, passado em segredo por aquelas mãos firmes, de que vai estar sempre estar ali para me segurar em seus braços e dizer que está tudo bem.






Sally, (de)mais amor.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Portraits

Passei a vida sonhando com aquele amor certinho, bonitinho, morninho, que bate cedinho à nossa porta e fica pra sempre no coração, que trás um casamento perfeito, filhos perfeitos, e uma vida que minhas amigas invejariam, embora cada uma tenha seu par perfeito, seu casamento de conto de fadas – ou do vigário – com uma churrasqueira no quintal, crianças de comercial de margarina e uma TV ligada no futebol, sábado à tarde. Quis Deus que eu passasse muito tempo esperando e, graças a Ele, esse amor não veio. Não desperdicei meus melhores dias com diminutivos, com um punhado de afeto pré-fabricado, com satisfações à sociedade e frustrações debaixo do travesseiro. Amei torto, grande, intenso. Meu amor me fez feliz, sorridente, sonhadora e prática, fez com que eu soubesse que era mulher, em todos os sentidos, sob todos os aspectos. O amante perfeito é o que mantém seus pés no chão, e leva sua cabeça, sua boca, seus seios e todo o resto do pacote a outras dimensões. Eu o tive, e o tenho ainda, na minha cama, no seu sorriso, no fundo de meu peito e em todos os lugares onde o quisesse, de todas as formas que se pode querer sentir. Fomos amigos, confidentes, companheiros, fomos felizes. Satisfeitos com nossa vida, cheios dela, vida por todos os cantos, por cada poro. Ele temia tanto amor e eu o amava mais por isso. Sua fragilidade me emocionava, sua força me fazia cada vez mais orgulhosa, era um homem construído no dia a dia, se esforçava cada vez mais para sê-lo e eu sentia prazer em vê-lo crescer, sentia-me segura por aprender com ele, por ser expectadora privilegiada da luta diária para manter o rumo de acordo com seus princípios. Foi difícil vê-lo ir, algumas vezes. Hoje não preciso esconder que chorei sozinha a falta da única coisa que me completava, seu sorriso cúmplice. Eu sempre soube que ele me entenderia, quando eu mesma não sabia bem o que estava fazendo. Eu sempre tentei compreendê-lo, ainda que tivesse querido gritar ‘FICA COMIGO’ mais de uma dúzia de vezes, ainda que não soubesse bem o que ele queria em algumas ocasiões. Ele achava meu amar estranho, eu refleti um pouco sobre seu não-amor, e me importei tanto com minhas conclusões estranhas que hoje nem lembro bem quais foram. Aprendi a não questionar, já que amor não precisa de respostas. Não precisa de palavras, pra ser exata. Amor não precisa de legendas, ou tradução, não carece daquela coisa mesquinha de esquadrinhar cada traço do sentimento pra que se possa sentir, amor não sai pronto, não tem tempo ou espaço, nem hora marcada nem dia no calendário. Cada passo no meu dia girava em torno de ser feliz, de ver seu rosto – o amor em carne, osso e um jeito de me levar à loucura - através do vidro do carro e de saudá-lo, quando ele se acomodava ao meu lado e perguntava, invariavelmente, ‘E AÍ, O QUE VOCÊ QUER FAZER?’. Eu, dependendo do dia, respondia: ‘O QUE VOCÊ QUISER!’ ou ‘FICAR COM VOCÊ, MEU AMOR’. Tive tudo o que podia ter desejado, do nosso jeito. O jeito do resto do mundo não me importava, e depois de algum tempo passou a não importar para ele, também. Foi terno, doce, inebriante. Nos roubava os sentidos, inclusive o do que era real, criou uma realidade paralela da qual nunca quisemos escapar.







Sally, epitáfios e afins...

sábado, 1 de dezembro de 2007

SHORTCUTS

Claro que eu conheço a culpa. Mas ela nunca mais se manifestou desde que eu conheci a responsabilidade, e a assumi, sob qualquer circunstância.

"- Eu sempre vou ter algo importante pra fazer! E vou ter que ir, sempre..."
(ele*, pra mim)



Eu sei o que é o medo, mas sentimentos que eu não controlo me tornam extremamente imprudente.

"- Eu te amo"
(eu**, pra ele*)



Um dia fui apresentada pra tão aguardada felicidade, ela se sentiu bem vinda e nunca mais foi embora.

"- Você é muito importante pra mim..."
(ele*, pra mim)



Amo cada um dos meus amigos. Eles me aturam, me divertem, me confortam e me deixam refletindo sobre ainda haver vida inteligente na Terra.

"- Cara!!! O que é isso??? *som irritante do motor do secador de cabelos ao fundo* Algum objeto medieval de tortura???
Ele termina de entrar no quarto e olha pra mim, estou perplexa e levo dez segundos, pelo menos, pra me recompor.
- É... A primeira coisa que o som de um motor me faria lembrar é o período medieval..."
(Da série Carlos&Eu)




*o sujeito mais importante desse mundo, meu amor, meu sorriso.
**propriedade dele, feliz, e com saudades.






Sally, shortcuts.

domingo, 25 de novembro de 2007

Amo vê-lo desconcertado, verbalizando o ciúme, mesmo sem aceitá-lo, sendo sincero ao extremo, se expondo, como eu mesma faço tantas e tantas vezes. Amo olhá-lo nos olhos e enxergar meu reflexo, ver, entre um espasmo de prazer e outro, aquele sorriso satisfeito no canto da boca, enterrar as unhas no seu corpo forte e sentir toda minha fragilidade quando estou em sua presença. Amo o jeito torto de dizer que me quer, a forma tímida com que aceita meu amor e a doçura com a qual acolhe meus temores, a ternura com que afaga meus cabelos e a expressão de êxtase enquanto me proporciona todo prazer do mundo. Amo sua forma de me fazer rir das piores situações, de me fazer perceber como somos parecidos, de aprender com todas as experiências, de me dobrar quando estou com raiva, de me convencer do que quer que seja. Amo estar nessa história, fazer parte do seu mundo, ser um pouquinho de você.








Sally, (in)ternas.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

imaginários

- Te amo
- Mesmo?
- Você duvida?
- Não, você é mesmo dada a extremos
- Não me importo se você não me ama
- Não?!?! Mas eu nem disse isso
- Precisa?
- Não sei. Você sabe o quanto é importante
- Sei, mas não importa, não ligo pro seu não amar
- Como é isso?
- Eu te amo
- Eu sei! Quero saber como é lidar com um possível não-amor
- Simples
- Como?
- Eu te amo... Eu te amo! Não é amor por nós dois, mas é amor pra mim. Te amo, sem querer um 'eu te amo' de volta, sem precisar de afirmações de sentimento, sem cobrar presença a todo momento. Te amo e te amo, só. Entendeu?
- O que você falou? Não... Mas entendo teu olhar, é o suficiente









Sally, diálogos (in)ternos

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Há muito sabia que a saudade era como chuva fina, insistente, se infiltrando, trazendo o frio e minando o que havia de esperança nos raios de um sol que se perdeu no cinza do céu. Sabia que a solidão era faca afiada, cortando os laços com a alegria, sangrando a alma a não mais poder. Contemplando aqueles olhos descobriu algo novo: o amor é como magia, é só acreditar que ele acontece, é só desejar e ele aparece e não deixa mais seus sonhos em paz.




playlist:

1 - Incomplete (BackStreet Boys)
2 - Fluorescent (Gwen Stefani)
3 - The Pieces Don't Fit Anymore (James Morrison)
4 - Call The Police (James Morrison)
5 - The Last Good Bye (James Morrison)
6 - You'll Be In My Heart (Phil Collins)







Sally, (in)confidências.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Depois de não atender ao telefone, não responder e-mails e dizer pra própria mãe que fosse procurá-la na esquina, não houve como não atender à campainha. Claro que ele iria chegar como quem sequer tivesse tentado se comunicar durante todo o feriado, e iria demonstrar aquela preocupação irritante, e iria acabar lendo gibis velhos no quarto dela, esperando que o banho acabasse, que a animação se manifestasse, que um rastro de sorriso aparecesse pra ele poder brincar.
- Atendeu em tempo record! Tava me esperando, é?
- Estava esperando a morte, pra ser mais exata, mas ela tava demorando tanto que chegou você! - a frase deixava claro que ainda havia algum bom humor, mas ela sabia que ia dificultar a vida dele. Na verdade, um dia brigariam de forma definitiva, mas por maior que fosse o incômodo, ainda não seria hoje, não se ela pudesse evitar.
- Adoro o seu humor de porco espinho!
- Adoro você! Me diz o que o traz a tão distante recanto do mundo, hein?
- Soube que você recusou o cinema, o kart, o clube pra levar o aborígene, o almoço com suas amigas... Tá preparando um retiro espiritual ou o hospital agora é mais interessante que o Outback?
- Nada demais. Fora uma gracinha de estagiário que trabalha com meu médico, bem... Nada demais no hospital. Na verdade só fui à clínica, rotina, sem muito alarde. Ainda não cheguei ao estágio da emergência ou do pronto socorro. - ela tinha decidido evitá-lo, se fosse possível.
- E você realmente é daquelas que recusa a social pro bebê, e que prefere uma hora no nefrologista aos vinte sagrados minutos da pista de kart. Entendo...
- Não tava a fim de sair, e o tempo não estava bom pra ir ao clube. Algum problema? Tô sem saco, só isso!
- Não teria problemas se você fosse mais franca. Engraçado que você não deve ser tão fechada assim com todo mundo... Tem gente que sabe exatamente onde tocar pra te ver fazer coisas, ou contar coisas!
- Questão de talento, amorzinho, ou você nasce com isso, ou se rói de inveja de quem tem! Dá pra parar de me pressionar por nada? Me senti mal, estou gorda, com as articulações vencidas, coisa da idade! - ia ser difícil se não terminasse naquele instante, tinha que torce pelo bo senso que ele sempre teve.
- Você quer que eu vá embora? - ele pergunta, sabendo a resposta. Ela se sente aliviada.
- Não - ela mente - quer ver um filme?
- Vai sair de casa?
- Não! Tô cansada! Vamos escolher alguma coisa e eu faço pipocas! - ela o ama, isso é certo. Não se deixa um grande amigo passar assim, ela não deixaria. Brigar não os satisfaria, pelo menos não depois de 15 ou 20 minutos.
- Se não for algo parecido com o que você tem visto ultimamente vou me sentir mais tentado... - ele é implicante, mas sabe como descontraí-la.
- Você pega o filme! Vê lá no meu quarto, põe o filme que eu já subo. Se não tiver nada que agrade no rack, tem as caixas de séries no armário e alguns shows nas gavetas.
- Pega as chaves - ele joga as chaves do carro - tem um espumante legal no porta malas. Não combina com pipoca, mas eu sei que você vai gostar. Se você puder tomar um pouco... Se não fizer mal...
- Não vai fazer! Vou pôr pra gelar e a gente toma mais tarde - ela grita enquanto ele sobe as escadas.
- Deve estar gelado, está bem acondicionado! - ele volta, rindo - Está achando que está lidando com um amador, docinho?
Ela ri e pensa em como foram parar assim. Nem deviam ter se tornado amigos, dadas as diferenças quase irreconciliáveis, mas foram mais longe que o companheirismo da sala de aula.
- Tem algo decente por aqui? Terror? Filme de gente grande?
- Não vou te responder sobre o terror, mas quanto aos filmes de gente grande, deve ter alguma coisa, mas não acho muito apropriado vermos isso, sozinhos então, sem chance!!!
- Palhaça! - Ele voltou ao quarto, rindo da brincadeira. Escolheu um filme e pegou uma velha revista em quadrinhos para folhear.
Ela chegou com a pipoca e a bebida, se acomodaram no chão, sem precisar falar. Ela dormiu no meio do filme, estava realmente cansada. Ele não se mexeu, até que ela acordasse, com medo de que o movimento fosse afastar a cabeça da menina do seu colo. Depois que ela levantou ele a colocou na cama, afagou seu cabelo e se despediu, sem falar. Tarde da noite o telefone tocou, era ele, pra saber se estava tudo bem, pra desejar boa noite, pra avisar sobre os bombons e as flores na mesa da cozinha, pra ser muito importante, mais uma vez.
Sally, dias (im)possíveis.